Blog de Sociologia do Prof° Cléber Duarte. Conteúdo voltado para as aulas desta disciplina no Instituto Olívia Lahm Hirt, em Igrejinha/RS.
"A história da sociedade até aos nossos dias é a história da luta de classes."
Karl Marx
Eis uma grande história: estudantes do ensino médio do Colégio Estadual Presidente Emílio Garrastazu Médici, em Salvador, fizeram uma exposição sobre o conterrâneo Marighella. Batizaram-na “A vida em preto e branco: Carlos Marighella e a ditadura militar”.
No vídeo, a professora de sociologia Maria Carmen mostra o trabalho de seus alunos.
“Seu livro foi uma base e uma inspiração para este trabalho”, ela disse a Mário Magalhães, comovendo-o. (Clique aqui para ler sobre a obra “Marighella – o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo”)
Há um movimento para mudar o nome do estabelecimento para Carlos Marighella. Médici era o ditador cujo governo torturava e matava seres humanos. Foi no seu mandato que ao menos 29 agentes da ditadura, armados até os dentes, assassinaram Marighella, desarmado.
A professora Carmen e seus alunos orgulham a Bahia e o Brasil. Quem mantém um colégio com tal nome se iguala a qualquer fanático que, na Alemanha, pretenda erguer uma escola chamada Adolf Hitler.
Dizem que uma mentira repetida à exaustão se transforma em
verdade. Pura mentira. Uma mentira repetida à exaustão é só uma mentira,
que descamba para o clichê, que descamba para o discurso. E o discurso,
quando mal calibrado, é o terreno para legitimar ofensas, preconceitos,
perseguições e exclusões ao longo da História. Nem sempre é resultado
da má fé. Por estranho que pareça, é na maioria das vezes fruto da
indigência mental – uma indigência mental que assola as escolas, a
imprensa, as tribunas, as mesas de bares, as redes sociais. Com os anos,
a liberdade dos leitores para se manifestar sobre qualquer assunto e o
exercício de moderação de comentários nos levam a reconhecer um clichê
pelo cheiro. Listamos alguns deles abaixo com um apelo humanitário: ao
replicar, você não está sendo original; está apenas repetindo uma
fórmula pronta sem precisar pensar sobre tema algum. E um clichê
repetido à exaustão, vale lembrar, não é debate. É apenas relincho*.
“Negros tem preconceitos contra eles mesmos”
Tentativa clássica de terceirizar o próprio racismo, é a frase mais
falada das redes sociais durante o Dia da Consciência Negra. É propagada
justamente por quem mais precisa colocar a mão na consciência em datas
como esta: pessoas que nunca tomaram enquadro na rua nem foram
preteridas em entrevistas de emprego sem motivos aparentes. O discurso é
recorrente na boca de quem jamais se questionou por que a maioria da
população brasileira não circula em ambientes frequentados pela elite
financeira e intelectual do País, como universidades, centros culturais,
restaurantes, shows e centros de compra. Tem a sua variação homofóbica
aplicada durante a Parada Gay. O sujeito tende a imaginar que Dia Branco
e Dia Hétero são equivalentes porque ignora os processos históricos de
dominação e exclusão de seu próprio país.
“Não precisamos de consciência preta, parda ou branca. Precisamos de consciência humana”
Eis uma verdade fatiada que deixa algumas perguntas no contrapé: o
manifestante a exigir direitos iguais não é gente? O que mais se busca,
nessas datas, se não a consciência humana? Ou ela seria necessária, com
ou sem feriado, caso a cor da pele (ou o gênero ou a sexualidade) não
fosse, ainda hoje, fatores de exclusão e agressão?
“Heteros morrem mais do que homossexuais. Portanto, somos mais vulneráveis” É o mesmo que medir o volume de um açude com uma
régua escolar. Crimes como homicídio, latrocínio, roubo ou furto têm
causas diversas: rouba-se ou mata-se por uma carteira, por ciúmes, por
fome, por motivo fútil, por futebol, mas não necessariamente por causa
da orientação sexual da vítima. O argumento é utilizado por quem nunca
se perguntou por que ninguém acorda em um belo dia e decide estourar uma
barra de ferro na cabeça de alguém só porque este alguém gosta e anda
de mãos dadas com alguém do sexo oposto. O crime motivado por ódio
contra heterossexuais é tão plausível quanto ser engolido por uma
jaguatirica em plena Avenida Paulista.
“Estamos criando uma ditadura gay (ou racial) no Brasil. O que essas pessoas querem é privilégio”
Frase utilizada por quem jamais imaginou a seguinte cena: o sujeito
acorda, vê na tevê sempre os mesmos apresentadores, sempre as mesmas
pautas, sempre as mesmas gracinhas. No caminho do trabalho, ouve ofensas
de pedestres, motoristas e para constantemente em uma mesma blitz que
em tese serviria para todos. Mostra documento, RG. Ouve risada às suas
costas. Precisa o tempo todo provar que trabalha e paga imposto (além, é
claro, de trabalhar e pagar imposto). Chega ao trabalho e é recebido
com deferência: “oi boneca”; “oi negão”; “veio sem camisa hoje (quando
usa camisa preta)?”. Quando joga futebol, vê a torcida imitando um
macaco, jogando bananas ao campo, ou imitando gazelas. E engasga toda
vez que vira as costas e se descobre alvo de algum comentário. Um dia
diz: “apenas parem”. E ouve como resposta que ele tem preconceito contra
a própria condição ou está em busca de privilégio. Resultado:
precisamos de um novo glossário sobre privilégios.
“A mulher deve se dar o valor” Repetida tanto por homens como mulheres, é a
confissão do recalque, em um caso, e da incompetência, no outro: o homem
recorre ao mantra para terceirizar a culpa de não controlar seus
próprios instintos; a mulher, por pura assimilação dos mandamentos do
pai, do marido e dos irmãos. Nos dois casos o interlocutor acredita que,
ao não se dar o valor, a menina assume por sua conta e risco toda e
qualquer violência contra sua pretensão. Para se vestir como quer, andar
como quer, dizer e fazer o que quer com quem bem quiser, ouvirá, na
melhor das hipóteses, que não é a moça certa para casar; na pior, que
foi ela quem provocou a agressão.
“A Lei Maria da Penha não protege os homens da violência feminina” Na Lua, é possível que a relação entre gêneros seja
equivalente. Na Terra, ainda está para aparecer o homem que apanhou em
casa porque foi chamado de gostoso na rua, levou mão na bunda, ouviu
assobios ou ruídos com a língua sem pedir a opinião da mulher. Também
não há relevância estatística para os homens que tiveram os corpos
rasgados e invadidos por grupos de mulheres que dominam as delegacias do
País e minimizam os crimes ao perguntar: “Quem mandou tirar a camisa?”.
“Se ela se deixou ser filmada, é porque quis se exibir”. Verdade. Mas
não leva em conta um detalhe: existe alguém do outro lado da tela, ou
da câmera. Este alguém tem um colchão de conforto a seu favor. Se um dia
o vídeo vazar, será carregado nos braços como comedor. Ela, enquanto
isso, vai a exibida. A puta. A idiota que se deixou ser flagrada. A
vergonha da família. A piada na escola. Parece uma relação bastante
equilibrada, não?
“O humor politicamente correto é sacal” É a mais pura verdade em um mundo no qual o
politicamente incorreto serve para manter as posições originais ao riso:
ricos rindo de pobres, paulistas ridicularizando nordestinos, brancos
ricos fazendo troça de mulatos pobres, machões buscando graça na
vulnerabilidade de gays e mulheres. As provocações são brincadeiras
saudáveis à medida que a plateia não se identifica com elas: a graça de
uma piada sobre português é proporcional à distância do primeiro
português daquele salão. Via de regra, a frase é usada por quem jura se
ofender quando chamado de girafa branca tanto quanto um negro ao ser
chamado de macaco. Só não vale perguntar se o interlocutor já foi
chamado de “elemento suspeito”, com tapas e humilhações, pelo simples
fato de ser alto como o artiodátilo.
“Bolsa Família incentiva a vagabundagem. Pegar na enxada e trabalhar ninguém quer”
Há duas origens para a sentença. Uma advém da bronca – manifestada,
ironicamente, por quem jamais pegou em enxada – por não se encontrar
hoje em dia uma boa empregada doméstica pelo mesmo preço e a mesma
facilidade. A outra origem é da turma do “pegar o jornal e ler além o
horóscopo ninguém quer”; se quisesse, o autor da frase saberia que o
Bolsa Empreiteiro (que também dispensa a enxada) consome muito mais o
orçamento público do que programa de transferência de renda. Ou que a
maioria dos beneficiários de Bolsa Família não só trabalha como é
obrigada a vacinar os filhos, manter a regularidade na escola e
atravessar as portas de saída do programa. Mas a ojeriza sobre números e
fatos é a mesma que consagrou a enxada como símbolo do nojo ao
trabalho.
“Na ditadura as coisas funcionavam” Frase geralmente acolhida por pacientes com síndrome de
Estocolmo. Entre 1964 e 1985, a economia crescia para poucos, às custas
de endividamento externo e da subserviência a Washington;
universalização do ensino e da saúde era piada pronta, ninguém podia
escolher os seus representantes, a imprensa não podia criticar os
generais e a sensação de segurança e honestidade era construída à base
da omissão porque ninguém investigava ninguém. Em todo caso, qualquer
desvio identificado era prontamente ofuscado com receitas de bolo na
primeira página (os bolos eram de fato melhores).
“Você defende direito de presos porque ele não agrediu ninguém da sua
família”. É o sofisma usado geralmente contra quem defende o uso das
leis para que a lei seja garantida. Para o sujeito, aplicação de penas e
encarceramentos são privilégios bancados às custas dele, o
contribuinte. Em sua lógica, o Estado só seria efetivo se garantisse a
sua segurança e instituísse a vingança como base constitucional. Assim, a
eventual agressão contra um integrante de uma família seria compensada
com a agressão a um integrante da família do acusado. O acúmulo de
experiência, aperfeiçoamento de leis e instituições, para ele, são
licença poética: bons eram os tempos dos linchamentos, dos
apedrejamentos públicos, da Lei de Talião. Falta perguntar se o defensor
do fuzilamento está disposto a dar a cara a tapa, ou a tiro, quando o
filho dirigir bêbado, atropelar, agredir e violentar a família de quem,
como ele, defende penas mais duras para crimes inafiançáveis.
“A criminalidade só vai diminuir quando tiver pena de morte no Brasil” Frase repetida por quem admira o modelo prisional e
o corredor da morte dos EUA, o país mais rico do mundo e ao mesmo tempo
o mais violento entre as nações desenvolvidas. Lá o crime pode não
compensar (em algum lugar compensa?), mas está longe de ser varrido
junto com seus meliantes.
“Político deveria ser tratado por médico cubano” Tradução: “não gosto de política nem de médico
cubano”. Pelo raciocínio, todo paciente tratado por cubanos VAI morrer e
todo político que precisa de tratamento médico DEVE morrer. Para o
autor da frase, bons eram os tempos em que, na falta de médico
brasileiro, o melhor é deixar morrer – ou quando as leis eram criadas
não pelo Legislativo, mas pelo humor de quem governa na canetada.
“Deveriam fazer testes de medicamento em presidiários, não em animais”
Também conhecida como “não aprendemos nada com a parábola do filho
Pródigo que tantas vezes rezamos na catequese”. É citada por quem não
aceita tratamento desumano contra os bichos, mas não liga para o
tratamento desumano contra humanos. É repetida também por quem se
imagina livre de todo pecado e das grandes ironias da vida, como um
certo fiscal da prefeitura de São Paulo que um certo dia criticou o
direito ao indulto de presidiários e, no outro, estava preso acusado de
participação na máfia do ISS. É como dizem: teste de laboratório na cela
dos outros (ou do filho dos outros) é refresco.
“Por que você não vai para Cuba?”
Também conhecida como “acabou meu estoque de argumentos. Estou andando na banguela”.
Como todo bom país capitalista que se preze, no Brasil prevalece o velho mito da meritocracia. Se o sujeito se esforça, vai atrás, possui um dom (divino?) e faz bom uso dele, ele terá, sem sombra de dúvidas, sucesso em sua vida profissional.
A meritocracia é um princípio do liberalismo econômico e serve como base de todo o pensamento do "sonho americano." Os milhões de americanos que estão sem emprego hoje, na verdade, são os únicos culpados por seu fracasso. Não quiseram estudar, não tentaram mudar de vida. A crise econômica não tem nada a ver com isso, em absoluto.
No Brasil, hoje vivemos uma experiência de alguns anos do sistema de cotas para ingresso na universidade pública. Cotas estas reservadas para os negros. Mas, afinal de contas, não somos todos iguais?
Claro, biologicamente somos todos iguais. No entanto, socialmente somos diferentes.
O jovem que mora em uma casa confortável, em um bairro nobre da cidade, que acorda, toma um bom café da manhã, acessa sua rede social e vai para a escola de carona no carro do pai é exatamente igual à aquele que mora numa casa simples, numa periferia, que acorda e tem que fazer café para ele e os irmãos, arrumá-los para pegarem o ônibus e então, finalmente chegar à escola? Obviamente que não.
E, se levarmos em conta a cor da pele destes mesmos jovens, qual deles será branco? Qual deles será negro?
Infelizmente as oportunidades para negros e brancos no Brasil não são as mesmas. A imensa maioria das pessoas que moram nas periferias, nas favelas, etc. são negras. E a quase totalidade das pessoas que residem em bairros nobres são brancas.
A escravidão a qual os negros foram submetidos deixou marcas profundas na sociedade brasileira. Os negros, que com seu trabalho, ajudaram a construir esta sociedade, não tem acesso aos melhores frutos que ela gera.
Não é por acaso ou mera coincidência que apenas 6% dos estudantes universitários são negros embora 51% da população brasileira não seja branca.
Os defensores da meritocracia torcem o nariz para o sistema de cotas porque isso contraria tudo aquilo que eles sempre defenderam: que a universidade pública seja apenas para os filhos da classe média e branca.
Por tudo isso, as cotas (e toda política de inclusão social) gera medo nas classes dominantes. E por isso, defender as cotas se torna tão importante, porque é um debate afirmativo, de que podemos sim, ser todos iguais.
Um texto de uma frase no blog do Playstation no Brasil desencadeou uma reação em cadeia nas redes sociais: como é possível que um videogame de 400 dólares nos EUA custe R$ 4 mil no Brasil? Nem mesmo a justificativa padrão dos empresários, de que “os impostos são muito altos no Brasil”, é capaz de justificar um preço que é quase o dobro do preço do concorrente direto.
Para começar, é conveniente fazer um cálculo direto, considerando que o valor do console nos EUA já tem embutido em si uma margem razoável de lucro. São 400 dólares no videogame. Normalmente, o governo cobra uma alíquota de 60% na importação sobre o preço original, elevando o valor do produto para US$ 400 + (60% x US$ 400) = US$ 640. Além disso, podemos inserir, sendo muito generosos, um custo de 10% do valor total do produto, já com impostos para serviços de logística: US$ 640 + (10% x US$ 640) = US$ 704.
Atualizando esse número com uma cotação GENEROSA do dólar, que segue instável no Brasil, temos que o custo final de um Playstation 4 no país deveria ser:
US$ 704 x R$ 2,40 = R$ 1689,60.
Vamos arredondar para R$ 1700,00, com custo de transporte e com os impostos cobrados. E daí constatamos que os R$ 2.300,00 adicionais que a Sony vai cobrar no console são APENAS lucro adicional.
Mas por que isso acontece no Brasil? E por que acontece não apenas com vídeo games, mas com eletrônicos em geral, com carros, com casas, com taxas bancárias, com produtos de supermercado e de todas as demais coisas que o brasileiro consome?
É simples: embora as multinacionais tentem justificar seus preços abusivos com a falácia do Custo Brasil (sim, ele realmente atrapalha, mas não é tão determinante assim), a questão é que no Brasil a maioria das empresas internacionais cobra preços abusivos por seus produtos, mesmo que eles tenham sido fabricados aqui. E essa tentativa de maximização de lucros dá certo por um único motivo: há um público específico que compra esses produtos, mesmo que eles custem preços abusivos.
Quem é esse público específico? A parcela dos mais ricos, em um país com extenso históricos de desigualdades sociais. No Brasil, a parcela de 1% dos mais ricos tem 87 vezes a renda da parcela dos 10% mais pobres. O que, a rigor, significa que eles consomem 87 vezes mais. Ou até mais, se considerarmos que nosso sistema tributário, baseado mais na tributação do consumo do que na tributação da renda, tem efeito impulsionador na desigualdade social no país.
Ainda há um agravante: no Brasil, a diferenciação se dá através do consumo. Culturalmente a ideia de ascensão social no Brasil não se baseia na criação de uma poupança interna ou na qualidade de vida das famílias, mas na noção de consumo. O próprio governo federal se aproveitou disso em seus três mandatos, promovendo um modelo de desenvolvimento baseado no incentivo ao consumo.
As empresas sabem disso, e fazem produtos voltados a esse público que quer diferenciação. É o videogame de R$ 4 mil, o carro de R$ 100 mil, e é a eclosão de estabelecimentos “gourmet”, que oferecem produtos bem mais caros apenas porque o público que vai comprar não quer apenas o produto, e sim o status diferenciado que o consumo daquele produto confere. Karl Marx já falava disso há 150 anos atrás, com o nome de “fetiche da mercadoria”.
A questão é que a desigualdade social potencializa isso no Brasil. A diferença entre ricos e pobres ainda é imensa no país e a venda de um produto desejado por alguns que vão comprá-lo por qualquer preço, como um videogame, por conta do fanatismo e do status social, incentiva as empresas a cobrarem preços absurdos em nome do lucro fácil. Façamos uma conta tosca aqui:
Suponhamos que 25% dos potenciais compradores de um PS4 compraria ele por qualquer preço, pelos fatores já elencados. E suponhamos que o custo para a Sony de um PS4 no Brasil seja de R$ 1500,00, já incluindo impostos, custo de transporte e pós-venda.
Se a Sony colocar o preço do PS4 a R$ 2000,00, por exemplo, quantos consoles ela precisaria vender para lucrar R$ 1 milhão?
A resposta é simples: R$ 1 milhão / R$ 500 de lucro por console = 2000 consoles.
Colocando o preço do PS4 a R$ 4000,00, a Sony precisaria vender quantos consoles para lucrar R$ 1 milhão?
Resposta: R$ 1 milhão / R$ 2500 de lucro por console = 400 consoles.
Se você dividir 400 por 2000, vai perceber que a Sony, quando pratica um preço abusivo, precisa vender APENAS 20% dos videogames para ter o mesmo lucro que teria se vendesse o console a um preço justo. E se a empresa sabe que 25% dos potenciais consumidores são fãs, tem dinheiro e vão comprar o Playstation 4 de qualquer jeito, ela prefere praticar o preço abusivo, porque isso vai resultar na maximização dos lucros da empresa, apesar da corrosão da sua imagem.
Ou seja: a desigualdade social e a existência desse grupo privilegiado faz com que seja justificável, para a Sony, praticar preços abusivos no Brasil. Assim como é justificável para a Apple, para as montadoras ou para as incorporadoras imobiliárias. Nos EUA e na Europa, em que a massa de consumidores médios é maior e tem mais noção do custo e da margem de lucro embutida nos produtos, a tentativa de maximização dos lucros pelo aumento dos preços, minimizando a massa consumidora, é um enorme tiro no pé.
No Brasil, por ainda existir uma elite bastante representativa em relação ao universo de potenciais consumidores desse tipo de produto, as empresas praticam preços abusivos. É lógico que outros fatores também contribuem negativamente, como a infraestrutura de transportes do país, predominantemente rodoviária, e a alta carga de impostos. Mas nem de longe explicam a viabilidade de empresas como a Sony praticarem preços abusivos no Brasil e ainda assim lucrarem. O que explica isso, além do fetiche da mercadoria, é a desigualdade social.
Não adianta olhar pro céu, com muita fé e pouca luta Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer e muita greve, você pode, você deve, pode crer Não adianta olhar pro chão, virar a cara pra não ver Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer Até quando você vai ficar usando rédea? Rindo da própria tragédia? Até quando você vai ficar usando rédea? (Pobre, rico, ou classe média). Até quando você vai levar cascudo mudo? Muda, muda essa postura Até quando você vai ficando mudo? Muda que o medo é um modo de fazer censura.
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!) Até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!) Até quando vai ser saco de pancada?
Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente, seu filho sem escola, seu velho tá sem dente Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante, você tá sem emprego e a sua filha tá gestante Você se faz de surdo, não vê que é absurdo, você que é inocente foi preso em flagrante! É tudo flagrante! É tudo flagrante!
Refrão
A polícia matou o estudante, falou que era bandido, chamou de traficante. A justiça prendeu o pé-rapado, soltou o deputado... e absolveu os PMs de vigário!
Refrão
A
polícia só existe pra manter você na lei, lei do silêncio, lei do mais
fraco: ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco. A
programação existe pra manter você na frente, na frente da TV, que é pra
te entreter, que é pra você não ver que o programado é você. Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar. O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar. E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá. Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar. Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar. Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar? Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar. Escola, esmola! Favela, cadeia! Sem terra, enterra! Sem renda, se renda! Não! Não!!
Refrão
Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente. A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda a gente anda pra frente. E quando a gente manda ninguém manda na gente. Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura. Na mudança de postura a gente fica mais seguro, na mudança do presente a gente molda o futuro! Até quando você vai ficar levando porrada, até quando vai ficar sem fazer nada? Até quando você vai ficar de saco de pancada? Até quando você vai levando?
Símbolo do comunismo, a foice e o martelo simbolizam a aliança entre os trabalhadores rurais e urbanos
O comunismo (do latim communis - comum, universal) é uma ideologia política e socioeconômica, que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes sociais e apátrida, baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral. Parte da convicção que a causa dos problemas sociais está na propriedade privada e na sua acumulação. Para a sua instalação, numa primeira fase, a propriedade privada seria estatizada, sendo o Estado gerido por um Partido político que se encarregaria de distribuir de forma igualitária a riqueza gerada por todos. Numa segunda fase, o Estado seria abolido, sendo o poder entregue ao povo.
O seu principal mentor, Karl Marx, postulou que o comunismo seria a fase final na sociedade humana e que isso seria alcançado através de uma revolução proletária. O "comunismo puro", no sentido marxista refere-se a uma sociedade sem classes, sem Estado e livre de opressão, onde as decisões sobre o que produzir e quais as políticas devem prosseguir são tomadas democraticamente, permitindo que cada membro da sociedade possa participar do processo decisório, tanto na esfera política e econômica da vida.
Karl Marx nunca forneceu uma descrição detalhada de como o comunismo poderia funcionar como um sistema econômico (tal foi feito por Lenin), mas subentende-se que uma economia comunista consistiria de propriedade comum dos meios de produção, culminando com a negação do conceito de propriedade privada do capital, que se refere aos meios de produção, na terminologia marxista. No uso moderno, o comunismo é muitas vezes usado para se referir ao Bolchevismo, na Rússia. Como um movimento político, o sistema comunista teve governos, em regra, com uma preocupação de fundo para com o bem-estar do proletariado, segundo o princípio "de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades".
As doutrinas comunistas mais antigas, anteriores à Revolução Industrial, punham toda ênfase nos aspectos distributivistas, colocando a igualdade social, isto é, a abolição das classes e estamentos, como o objetivo supremo. Com Karl Heinrich Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), fundadores do chamado "socialismo científico", a ênfase deslocou-se para a plena satisfação das necessidades humanas, possibilitada pelo desenvolvimento tecnológico: mediante a elevação da produtividade do trabalho humano, a tecnologia proporcionaria ampla abundância de bens, cuja distribuição poderia deixar de ser antagônica, realizando-se a igualdade numa situação de bem-estar geral.
A partir dessa formulação, que teve uma profunda influência sobre o comunismo contemporâneo, a sociedade comunista seria o coroamento de uma longa evolução histórica. Os regimes "anteriores", principalmente o capitalismo e o socialismo, cumpririam o seu papel histórico ao promover o aumento da produtividade e, portanto, as pré-condições da abundância, que caberia ao comunismo transformar em plena realidade. Enquanto o capitalismo desempenha esse papel mediante a emulação da concorrência, o socialismo deveria manter, em certa medida, essa emulação ao repartir os bens ainda escassos "a cada um segundo o seu trabalho". Só o comunismo, que corresponderia ao pleno "reino da liberdade e da abundância", poderia instaurar a repartição segundo o princípio de "a cada um segundo sua necessidade".